Vol 2 Num 1




BIOTA - FAPESP: as diversas dimensões de um sucesso

O programa BIOTA é uma das iniciativas mais importantes do sistema de pesquisa do Estado de São Paulo em todos os tempos, que se destaca por múltiplos aspectos. Inicialmente pela relevância e amplitude de seus objetivos científicos - inventariar e estudar uma das mais ricas e complexas biodiversidades do planeta. Não há precedentes de ambição comparável, como reconhecido pela assessoria internacional especializada que acompanha a execução do Programa desde sua concepção.

O BIOTA é inovador por sua natureza cooperativa, mobilizando mais de 400 pesquisadores doutores do Estado, que aderem ao mesmo protocolo de registro de informações e compartilham seus resultados continuamente. E inovou também na forma como foi proposto e lançado, a partir da iniciativa de lideranças capazes de motivar a comunidade científica e de convencer a FAPESP de sua necessidade e oportunidade. Em resumo, o Programa é fruto de uma comunidade amadurecida, consciente de seu potencial e das necessidades do País no que tange à sistemática apropriação intelectual de nossa bio-diversidade.

O BIOTA serve também de modelo de como superar a tradicional dicotomia entre programas de pesquisa induzidos e de demanda espontânea. Trata-se de um programa em que a FAPESP desempenhou o papel de articuladora de demandas espontaneamente geradas pela comunidade que, assim, ajuda a propor novas formas de atuação de uma agência que pretende estar atenta a desafios e oportunidades para estimular o desenvolvimento científico e tecnológico. A FAPESP tem buscado utilizar essa mesma estratégia de ação sinergética com a comunidade no lançamento de programas como o Tecnologia da Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada - TIDIA.

Ao firmar acordo com a National Science Foundation (NSF) para permitir o acesso de todo o sistema de pesquisa do Estado à rede Internet2 dos Estados Unidos e de todo o mundo, a FAPESP apresentou a cooperação do BIOTA com o projeto Species Analyst, da Universidade de Kansas, como exemplo de interação que demandaria essas facilidades de comunicação. Esse é mais um produto do Programa com benefícios imediatos para toda a comunidade cientÍfica paulista.

Nessa trajetória pontilhada de sucessos, celebramos aqui mais um marco do BIOTA, o lançamento da revista eletrônica BIOTA NEOTROPICA. Ao criar um espaço editorial para a apresentação de seus resultados, o Programa se mantém atual e ousado: propõe uma articulação com outra importante iniciativa da FAPESP, o projeto Scielo, que publica em versão eletrônica os principais periódicos científicos do País.

Cada vez mais governos e organismos supranacionais, bem como organizações não governamentais, têm de tomar decisões que envolvem questões ambientais com sérias implicações sociais, econômicas e para o próprio meio ambiente. Em muitos casos, essas decisões têm efeitos de longo prazo e são de difícil reversão. Por essa razão, elas têm de se apoiar, tanto quanto possível, em sólidas informações técnicas e científicas obtidas com a utilização de metodologias sofisticadas e dos últimos recursos e avanços do conhecimento científico e tecnológico.

Mas não só os que projetam e executam essas políticas que precisam estar bem informados. Na sociedade atual, para um pleno exercício da cidadania, é necessário dispor-se de informações tecnicamente embasadas. O cidadão é chamado a se manifestar sobre práticas e políticas ambientais e, para o bem comum, esses posicionamentos não podem se valer apenas da intuição, da emoção e muito menos de preconceitos. Os progressos da ciência são essenciais nesses processos de decisão e, nesse contexto, o BIOTA deverá assumir o papel central de gerador de subsídios para a ação de governos e para a informação da sociedade.

A recente polêmica suscitada pela publicação do livro, "The Skeptical Environmentalist", de Bjorn Lomborg (ref. 1), com réplicas e tréplicas (ref.2) que prometem se suceder infindavelmente (veja também as referências 3 e 4), nos leva a refletir ainda mais sobre essas questões e a tirar a única conclusão consensual: nada como mais e melhor ciência, como a produzida pelos cientistas do BIOTA e divulgada pela Biota Neotropica, para enfrentar o desafio da busca da verdade sobre o meio ambiente.

Referências:

  1. Lomborg, Bjorn The Skeptical Environmentalist - Measuring The Real State of The World, Cambridge University Press (2001)
  2. S. Schneider, J. Holdren, J. Bongaarts, T. Lovejoy "Misleading Math about the Earth", Scientific American, Janeiro 2002 (http://www.sciam.com/)
  3. Todo material publicado sobre o livro, críticas e resenhas, está disponível no site http://www.lomborg.org
  4. Pesquisa FAPESP, nº 74, pág. 90 (http://www.revistapesquisa.fapesp.br)

José Fernando Perez
Diretor Científico da FAPESP



Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Fapesp
Centro de Referência em Informação Ambiental, CRIA
© BIOTA NEOTROPICA, 2002